sexta-feira, 27 de março de 2009

A velha história - cap.5

"Igualzinha. Até a pintura da porta",reparou novamente enquanto apertava a campainha.
Ester tinha mania de criar conspirações em sua cabeça e naquele momento pensou que apenas ela e a casa eram as mesmas. Depois se lembrou do M, de sua assinatura feia e deixou o assunto pra lá. " Escrevo sobre isso mais tarde".
Uma senhora gorda, desdentada e com um semblante cansado apareceu na janela. Perguntou por Mara - a ex esposa de mestre Tomé era uma jovem mulher, bonita, magra, de cabelos pretos muito lisos e corpo e ginga de capoeirista, como todo o resto da família.
A senhora na janela exclamou: - Ester! Quanto tempo, minha querida!
- Mara?
Não podia acreditar. Aquela era a Mara? Aquela senhora? Tinha o dobro do peso, a metade dos dentes e uma quantidade enorme de amargura expressada no triplo de rugas da Mara de anos atrás. " Não fomos apenas eu e a casa. Mara também".

Entrou e se sentou em um sofá que poderia muito bem ser da década passada. Tomou um copo de água que também tinha gosto de velha. Mas nada disso tinha importância para Ester. Passado o impacto de ver como sua velha amiga estava, de fato, velha, ela agora havia engatado em um papo animado com Mara e perguntava de tudo e todos.
- Sinto falta daquela época. Queria que tudo fosse como antes.
- Sério?-questionou Ester, achando estranho que alguém quisesse parar no tempo, quando tudo que ela mais desejava é que o tempo voasse e não deixasse resquício nenhum do passado.

As horas se passaram rapidamente. Mara fez um café e serviu em copos de geléia, " como antigamente", riram.
A vida não havia sido generosa com a ex-esposa de Tomé. Na verdade, pelo relato que ouviu a tarde toda, era até discutível se aquilo poderia ser chamado de vida. Era uma ausência tão grande de vida, uma inexistência tremenda.
Mara passou por todo tipo de provação, mas a maior de todas foi a escolha de Solange.
- Ela não precisava disso, Ester, ela tinha escolhas.
Desabou a chorar, um choro doído de quem não havia aceitado, nem superado, nem entendido o que se passara na cabeça da filha. -Ela tinha escolhas, repetiu, entre soluços profundos.
Depois de se acalmar um pouco, contou como tudo havia acontecido.
Quando conheceu Marcos e se casou grávida, aos 15 anos, Solange tinha planos de formar uma família, estudar dança, se formar em administração. Mas em menos de um ano ganhou apenas marcas pelo corpo por causa dos constantes espancamentos e um filho que, Solange dizia, o pai só quis colocar no mundo para sofrer e fazê-la sofrer.
Depois que o casamento acabou - de maneira trágica, ressaltou Mara- Solange largou o filho de com sua mãe e decidiu que precisava se virar. Foi então que soube que Joana dançava em uma boate chilena. A ideia era se mudar para Santiago e ser dançarina também, mas a necessidade de ganhar dinheiro fez com que procurasse um bordel em Curitiba mesmo. Por causa das marcas de porrada no corpo, não conseguiu nada demais: um showzinho que abria a noite para as dançarinas principais e um aviso curto e grosso do dono do estabelecimento: tem que fazer programa e a casa fica com 20%.
- O que mais me dói é que ela faz isso por gosto. Já disse na minha cara, ela gosta de ser puta.
- Mara, desculpe perguntar, mas como terminou o casamento?
- Você não sabe? Deu em todos os jornais, até nos nacionais, respondeu tranquilamente.
Ester agora tentava rapidamente se lembrar de algo ligado ao mestre Tomé ou a algum deles, mas foi em vão.
- O canalha morreu dormindo.
Silêncio. O semblante cansado de Mara deu lugar a uma expressão estranha. Era uma mistura de satisfação com a sensação de dever cumprido, até mesmo de paz.
- Pelo menos, continuou, era o que todos pensavam, até descobrirem um enorme prego completamente enfiado no topo de sua cabeça.
- Como é?, gaguejou Ester.
- Sabe aquela parte da cabeça que quando a gente nasce é mole? A moleira, sabe? Então, era ali que estava o prego. Dizem que era enorme. Até hoje não descobriram o culpado, você acredita? Investigaram mas logo descartaram nossa família. Estavam todos viajando em um evento desses de capoeira e só eu estava em casa, mas ficou provado para os policiais que uma senhora como eu não teria condições de fazer aquilo com tamanha precisão. Na época eu estava com um problema sério na coluna e mal conseguiria andar até a casa de Solange, imagine então acertar aquele maldito na moleira. Não posso dizer que não pensei nisso todas as noites enquanto minha filha era casada com ele. Mas não fui eu.
Ester estava pasma. Enquanto Mara fazia sua defesa como se estivesse perante um tribunal, a única coisa que conseguia pensar era: foi ela. Foi ela que matou o genro.
Quando se deu conta, Mara já havia mudado de assunto e dizia como curou seu problema de coluna na igreja. " Foi como um milagre", contou. " Em um dia eu não andava, no outro eu já poderia até dar uma rasteira em algum cabra na roda", revelou com um sorriso debochado, de alguém que esconde uma parte da história. Ou que consegue manipular a história e criar suas próprias verdades.
Ester sentiu que o papo estava muito sombrio e achou que precisava ir embora o quanto antes. Mara definitivamente havia mudado, pensou.

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